A crise imobiliária da China se espalha

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Quando os tempos eram de vacas gordas para a incorporadora China Fortune Land, esta comprou um clube de futebol e recrutou atletas famosos da Argentina. Hoje, os jogadores do clube, o Hebei F.C., estão de licença por tempo indeterminado, porque não podem se dar ao luxo de manter as luzes acesas para jogar.

A empresa é uma das que enfrentam dificuldades financeiras na China, desafiando a narrativa de Pequim de que é possível manter a crise da dívida corporativa do país sob controle, evitando o colapso desordenado de seus gigantes imobiliários.

Os mercados globais há poucas semanas estavam preocupados com o possível fracasso da China Evergrande Group, a desenvolvedora de imóveis mais endividada do mundo. Banqueiros centrais e figuras financeiras consideraram o impacto que seus mais de US$ 300 bilhões de dívidas não pagas teriam na economia da China se Pequim cumprisse seu compromisso de não garantir um resgate.

O tumulto na Evergrande parecia ter acabado recentemente, depois que a empresa fez pagamentos de títulos multimilionários. Mas seus problemas financeiros já desencadearam um pânico mais amplo, que contribuiu para uma onda de inadimplência entre outras incorporadoras. E seus problemas estão aumentando.

Está cada vez mais difícil encontrar dinheiro porque o custo do empréstimo aumentou, menos pessoas estão comprando apartamento e o valor do imóvel está caindo. As empresas imobiliárias têm cerca de US$ 40 bilhões em pagamentos a fazer apenas a investidores estrangeiros nos próximos dois meses, de acordo com uma estimativa.

A Kaisa Group, primeira desenvolvedora da China a não honrar sua dívida no exterior há seis anos, disse aos investidores este mês que estava enfrentando uma “pressão sem precedentes”. O estresse para os desenvolvedores chineses é tão intenso que o Federal Reserve dos Estados Unidos sinalizou a situação como um risco potencial para a economia americana em um relatório recente.

Especialistas alertam que, como as desenvolvedoras imobiliárias chinesas não cumprem suas obrigações financeiras mais básicas, os problemas da Evergrande já começaram a repercutir perigosamente. A Evergrande e Pequim estão gerenciando a crise da empresa de forma sigilosa, permitindo que ela cumpra alguns prazos de pagamento sem explicar como.

A abordagem pode conter o pânico, mas esconde pressões mais amplas sobre o setor e uma economia que há muito se voltou para o mercado imobiliário para ajudar a impulsionar seu crescimento.

“A situação fundamental da Evergrande realmente não mudou. Continuamos achando que o calote é quase uma certeza”, declarou Matthew Chow, analista de propriedades da China e diretor da S&P Global Ratings.

A Evergrande fez pagamentos de juros que totalizaram quase US$ 150 milhões em pelo menos dois de seus títulos em dez de novembro, quando o período de carência desses pagamentos acabaria. Não está claro como a empresa conseguiu garantir o dinheiro necessário para fazer seus pagamentos recentes, pois ninguém está comprando seus apartamentos e uma longa fila de credores está à porta.

Mais de um milhão de compradores estão esperando por um apartamento inacabado, e a empresa pode estar devendo dinheiro a inúmeros trabalhadores da construção civil, pintores, paisagistas e funcionários. Michael Yang, vendedor da Evergrande na cidade de Chongqing, é um deles. Seu salário mensal na empresa, incluindo comissão, era de US$ 3.900. Mas Yang revelou que recebeu uma notificação no mês passado informando que, a partir de novembro, ele seria suspenso por um ano com um salário mínimo de US$ 280 por mês. “Não é suficiente para mim em Chongqing, com certeza”, afirmou.

Yang contou que a Evergrande garantiu a ele e a outros colegas que o dinheiro que a empresa economizou ao não pagar salários regulares seria usado para terminar a construção de apartamentos já vendidos, mas ainda não concluídos. Segundo Tang, a notícia foi tão desanimadora que ele começou a fazer entrevistas para novos empregos, embora, com sua nova esposa, esteja planejando começar uma família. “De repente, meu plano de vida foi interrompido. Eu não esperava que isso viesse tão depressa.”

Na ausência de informações de como a Evergrande encontrará dinheiro para manter suas operações, a internet da China foi brevemente incendiada no mês passado com relatos de que as autoridades planejavam forçar seu fundador bilionário, Xu Jiayin, a ajudar a pagar alguns dos milhões de pessoas a quem a empresa deve dinheiro.

A Evergrande não confirmou os relatos, que se repetiram na mídia estatal. Em vez disso, publicou fotografias de uma dúzia de projetos que, segundo ela, tinham acabado de ser concluídos. “Todos os funcionários do grupo juram garantir a construção do projeto com a maior determinação e força, e concluir a entrega do imóvel com a mais alta qualidade e em grande quantidade”, postou a Evergrande em uma de suas contas no aplicativo de mídia social WeChat.

As famílias chinesas parecem céticas. Em todo o país, as desenvolvedoras de imóveis alertaram para a queda nas vendas. A Evergrande relatou uma queda de 97 por cento em seu período de vendas mais recente em comparação com um ano atrás. A queda reportada da Kaisa levou a Fitch a rebaixar sua classificação da empresa este mês.

As autoridades chinesas tentaram incutir confiança e tranquilizar os investidores, chamando os riscos da Evergrande de “gerenciáveis” e se comprometendo a aliviar o controle de capital chinês sobre a movimentação de dinheiro dentro e fora do país, o que ajudaria a Evergrande e outras construtoras a fazer pagamentos a credores estrangeiros.

A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma convocou algumas das maiores desenvolvedoras do país para uma reunião em Pequim no mês passado e lhes pediu que fizessem “preparações ativas” para efetuar pagamentos a investidores estrangeiros. O regulador enfatizou a importância de seguir “uma disciplina financeira e as regras de mercado”.

Pequim já tinha indicado anteriormente que não interviria para salvar a Evergrande – parte de uma estratégia mais ampla para encerrar o problema da dívida do setor –, mas as autoridades chinesas têm um histórico de resgatar silenciosamente os gigantes corporativos do país.

Antes da Evergrande, foi a HNA, conglomerado que começou como uma companhia aérea e cresceu com dinheiro emprestado para adquirir a Swissport, a Ingram Micro e grandes participações no Deutsche Bank e na rede Hilton Hotels.

A HNA acabou cedendo sob o peso de suas contas não pagas. Em fevereiro, a administração da falência foi decretada, enquanto a reestruturação de suas centenas de subsidiárias era feita em segundo plano. Apenas fatos ocasionais – como acusações de que US$ 10 bilhões foram desviados dos cofres corporativos da HNA, ou de que seus principais executivos haviam sido detidos – trouxeram a empresa de volta ao foco público. Depois de meses de silêncio, a HNA declarou no mês passado que seus credores haviam concordado com uma solução para desmembrá-la, sem oferecer mais informações.

Assim como a HNA, a Evergrande contratou especialistas em reestruturação, mas não se sabe muito se as autoridades planejam desmembrar a empresa ou quem será salvo, se é que alguém será. Alguns investidores da Evergrande tiveram a oportunidade de saber mais sobre os vastos desafios da companhia durante uma reunião recente, mas assinaram um acordo de confidencialidade, que determinava que mantivessem as informações em segredo antes de uma possível reestruturação.

Para muitas pessoas que tiveram a vida abalada pela turbulência no setor imobiliário chinês, pode levar muito tempo até que obtenham respostas. Lei Tenglong, atleta do Hebei F.C., clube de futebol de propriedade da China Fortune Land, disse recentemente à mídia estatal que ele e seus companheiros não sabiam quando voltariam ao campo: “Não temos ideia de quando nossas férias acabarão.”

c. 2021 The New York Times Company

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